terça-feira, 23 de outubro de 2018

A engenharia e o combate à corrupção


O combate à corrupção e uma maior eficiência dos gastos públicos são duas das preocupações da população brasileira.  Para avançarmos nestes dois itens é preciso muito mais do que leis e mecanismos contábeis, também precisamos garantir um controle maior de informações relacionadas às obras de engenharia. Neste artigo vou abordar sobre a importância dos estudos preliminares para o desenvolvimento de projetos de engenharia e sobre às possíveis consequências da ausência destes estudos em obras públicas.
O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA), ainda em 1991, já destacava a importância dos estudos preliminares, conforme o Artigo 2 da Resolução 391 que apresenta a seguinte redação: “O Projeto Básico é uma fase perfeitamente definida de um conjunto mais abrangente de estudos e projetos, precedido por estudos preliminares, anteprojeto, estudos de viabilidade técnica, econômica e avaliação de impacto ambiental, e sucedido pela fase de projeto executivo ou detalhamento.”
No ano de 2017, o CONFEA através da decisão plenária (PL) número 2038, se manifestou sobre a importância dos estudos preliminares no combate à corrupção “Na ausência dos estudos preliminares do terreno a corrupção se aproveita do fato para exigir termos aditivos nos contratos alegando contingências geológicas não previstas nos projetos básicos e executivos”. Os estudos preliminares são fundamentais para embasar um projeto básico, análises geológicas, geofísicas e geotécnicas indicam as reais condições do terreno permitindo um dimensionamento adequado do projeto, evitando perda de tempo e dinheiro em etapas futuras.
Talvez se os estudos preliminares fossem feitos em todas às obras públicas, muitas delas que hoje estão paralisadas estariam já concluídas, muitos aditivos de contratos talvez poderiam ser evitados também. Ou seja, se tivéssemos como hábito nos processos licitatórios a realização de estudos preliminares teríamos uma eficiência muito maior dos recursos públicos.
Segundo decisão PL 2038 do CONFEA “As obras públicas são fundamentais para o Brasil, como um todo, em que devem ser de boa qualidade, realizadas com custos razoáveis e seguras em relação a eventuais acidentes”. Para que essas obras sejam executadas da melhor forma e com o menor custo benefício, é preciso que as prefeituras, o governo do estado e o governo federal adotem como medida obrigatória a realização de estudos preliminares em todos os processos licitatórios.
Da mesma forma como os governos possuem equipes jurídicas e contábeis, precisam também ter entre seus quadros, os profissionais técnicos necessários para o acompanhamento de todas as etapas de um projeto, sendo assim, é preciso entender que os profissionais de engenharia e geologia são fundamentais para que o estado tenha uma maior eficiência dos recursos.
Na internet em geral faz muito sucesso vídeos que mostram obras sendo realizadas em pouco tempo. Uma coisa o leitor pode ter certeza, para que uma obra seja executada com agilidade, é necessário que os estudos preliminares, o projeto básico e o projeto executivo sejam realizados com perfeição.
O Brasil precisa tomar uma atitude, é necessário mudar a cultura dos processos licitatórios brasileiros, visando por um fim neste cemitério de obras inacabadas que temos atualmente. Em cada obra dessas, está ali parado o dinheiro dos impostos suados do povo brasileiro. Precisamos garantir que cada projeto quando iniciado seja concluído, e que cumpra seu papel social, mas para isso essas obras precisam começar sendo realizadas com todas as informações necessárias, disponibilizadas pelos estudos preliminares.

Sacolas plásticas e reformas fiscais


O debate sobre reciclagem e destinação de resíduos está cada vez mais presente na sociedade. É fato que medidas precisam ser tomadas para reduzir os impactos ambientais das ações humanas. Na imprensa e nas redes sociais, de tempo em tempo, vejo iniciativas de pessoas ou grupos que realizam ações para coletar lixo em diversos locais. Essas inciativas merecem ser reconhecidas, mas será que essa é a melhor forma para resolver o problema? Neste artigo vou abordar sobre as medidas adotadas na Irlanda para redução do consumo de sacolas plásticas.
Conforme informações do Levy on plastic bags in Ireland na década de 90 o consumo de sacos plásticos na Irlanda atingiu o pico de 328 sacos por pessoa anualmente. Em 2011, depois de implementada uma política especifica para o tema, o consumo caiu para 18 sacolas anuais por pessoa. Mas como esse resultado foi alcançado?
Visando estimular uma mudança de hábito da população o Ministério do Meio Ambiente na Irlanda mobilizou esforços para introduzir uma taxa sobre sacos de plástico no país. O imposto foi introduzido em 2002, estabelecendo um valor de 0,15 euros por saco, em 2007 o valor foi elevado para 0,22 euros. Os recursos arrecadados vão para um fundo ambiental que possui como objetivo apoiar uma variedade de programas ambientais. A medida teve apoio popular quando implementada e até hoje possui forte apoio no país.
Discussões de políticas fiscais são importantes para garantir a sustentabilidade no mundo. O mercado sozinho não calcula o custo social e o custo coletivo das ações individuais. Todo habito humano reflete sobre o meio e sobre os outros seres humanos.  Cabe a sociedade analisar os impactos das ações, e através das políticas públicas propor mecanismos para garantir as condições necessárias para todos.
Na Irlanda os mercados não fornecem gratuitamente sacolas plásticas, e caso você queira você pode comprar uma sacola no caixa do supermercado. É um hábito comum no país os cidadãos reutilizar uma sacola plásticas por muitas vezes. O leitor talvez deva estar pensando agora “mas prefiro sacolas grátis”. O custo das sacolas que “ganhamos” nos supermercados está incluso em cada produto que compramos, o problema é que muitas vezes as sacolas são de má qualidade e nem se quer conseguem chegar até o destino final. Depois de chegar as residências muitas vezes são descartas e aí começa outro problema. Para onde vão as sacolas? Será que a destinação está sendo correta?
Uma das melhores formas de reduzir a quantidade de lixo no meio ambiente é reduzir a quantidade de resíduos que produzimos, será que não seria uma boa opção criar uma política similar no Brasil? Acredito que nossos rios e o meio ambiente como um todo iriam agradecer. Com certeza a redução alcançada na Irlanda de 328 para 18 sacolas é um belo exemplo para todos nós.

Ciência e religião são coisas opostas?


Há alguns anos coordeno um projeto de divulgação científica em escolas da grande Cuiabá, a iniciativa leva até os estudantes da rede pública, rochas minerais e fósseis que ajudam a contar a história do nosso planeta, assim como, quais às limitações de recursos naturais existentes. Durante as visitas sempre surge o questionamento: Ciência e religião são coisas opostas? É possível acreditar nos textos sagrados e na ciência? Neste artigo vou abordar um pouco sobre esse tema e sobre os perigos da negação a ciência. 
                Para iniciar a discussão, vamos conversar um pouco sobre a principal teoria científica, o Big Bang. Essa teoria propõe que todo o universo esteve concentrado em um único ponto, tudo que conhecemos surgiu de uma grande explosão que deu origem ao espaço e tempo e que o universo em que vivemos está em expansão. Um dos fatos interessantes desta teoria é que ela foi justamente proposta por um padre Jesuíta Chamado de Georges-Henri Édouard Lemaître.
                Georges Lemaítre com certeza acreditava em Deus e na Bíblia, mas ele também acreditava na ciência. Ao longo da história da humanidade, a cada dia o homem faz novas descobertas científicas, a cada dia conhecemos mais sobre a história do nosso planeta e do universo.
                Os fósseis e rochas ajudam a contar a história da evolução das espécies no nosso planeta, desde o surgimento dos primeiros seres vivos a mais de 3,7 bilhões de anos até o surgimento do homem moderno. Durante as exposições, algumas vezes já foi apresentada a seguinte pergunta: Se o homem veio do macaco por que não tem macaco virando homem até hoje? A resposta é simples, o homem e todos os outros primatas possuem um ancestral comum, da mesma forma como o tigre e o gato possuem um ancestral comum também.
                As informações apresentadas no parágrafo anterior vão contra as escrituras sagradas? Não. A Bíblia ou mesmo outros livros religiosos sempre tratam o surgimento de tudo de forma subjetiva e sempre destacam o tempo de Deus. Não poderia ser o tempo de Deus o tempo do universo?
                Não existe contradição entre ciência religião, e você pode sim acreditar nos dois. Por outro lado, a radicalização seja pela negação filosófica à religião ou pela negação à ciência, podem trazer riscos sérios à sociedade. Cada pessoa pode acreditar na religião que quiser, mas a ciência não é crença, ciência é uma construção baseada em estudos aprofundados e com devidas comprovações. Cabe destacar que o conhecimento científico evolui a cada dia, ou seja, amanhã poderemos ter uma informação que levará a uma mudança em uma teoria científica.
                Precisamos incentivar os jovens do nosso país a acreditar e se empenhar na construção do conhecimento científico.  Somente assim, poderemos alcançar avanços científicos que permitam, por exemplo, a cura do câncer. Se você é religioso, você pode ter fé e conhecimento científico.

Não deixem nossos museus virarem cinza


No último domingo (02/09), uma grande tragédia abalou a sociedade brasileira, o Museu Nacional, principal instituição museológica do Brasil ardeu em chamas queimando uma das principais coleções do mundo. Precisamos refletir sobre essa tragédia.
O museu foi vítima da falta de investimentos governamentais em cultura, ciência e tecnologia. Essa não é a primeira tragédia do gênero, o Museu da Língua Portuguesa, o Instituto Butantã e outras importantes instituições também perderam acervos relevante em eventos similares.
No museu nacional estavam importantes coleções de história natural, como por exemplo o crânio mais antigo das Américas. No local também estavam fósseis do famoso dinossauro Chapadense, o Pycnonemosaurus Nevesi, e mais de 20 milhões de peças. O patrimônio destruído pelas chamas resistiu milhões de anos na natureza, mas não resistiu a negligência governamental e aos cortes de verbas.
Essa tragédia serve como um aviso de outras que ainda podem ocorrer caso a realidade não mude. Vou aqui falar um pouco do cenário atual das instituições museológicas de Mato Grosso. A grande maioria delas está passando por um total abandono devido à falta de repasses do Governo do Estado. A situação é crítica e coloca em risco às coleções existentes nas instituições, assim como, os casarões históricos que abrigam esses importantes patrimônios culturais.
Não serei injusto em dizer que o abandono das instituições museológica é apenas culpa do Governo do Estado, os deputados estaduais, federais e os senadores parecem desconhecer essas instituições de cultura, ciência e pesquisa. Durante os últimos anos nenhum centavo se quer foi destinado para os museus mato-grossenses, por outro lado, tanto o governo do estado como os parlamentares destinaram muitos milhões para outros tipos de eventos culturais.
Esse cenário é uma vergonha e merece sim ser denunciado. Será que nossa história não merece respeito? Devemos tomar uma atitude, ou vamos esperar mais tragédias acontecerem? Investimentos em cultura são fundamentais para que às futuras gerações conheçam seu passado e entendam seu presente.